Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Sobre o diploma




Mantive-me calado até aqui em relação à dicotomia atual entre a obrigatoriedade ou não do diploma de jornalismo. Como uma criança que tem de se decidir entre o pai e a mãe, fui jogado de um lado ao outro por alguns jornalistas e intelectuais que considero importantes. Não obstante, ainda não pude e nem poderei optar por um dos lados, pois tal discussão constitui-se de princípios que se chocam e ambas as partes tem razão.

Como estudante de jornalismo, obviamente, já deveria há muito ter entrado na briga pela obrigatoriedade do canudo, mas não pude tomar os argumentos opostos como refutáveis ou indignos de serem levados em conta. Trata-se, em suma, de uma questão em que os dois lados defendem elementos básicos para a constituição do que chamamos jornalismo. Primeiro, que tal profissão não necessitou de um curso de formação para nascer. Segundo que, como podemos ver nos dias atuais, é plausível que necessite dela para sobreviver. Simplesmente porque o jornalista é quem narra a história humana, além de ser o jornalismo a principal forma de questionar as mazelas sociais e as injustiças, tornando-se uma instituição tão importante quanto os três poderes, uma vez que deveria trazer à luz as disparidades de nosso mundo.

No entanto, tal exercício não requer formação específica para existir, basta que nasçam homens preocupados com os dilemas sociais e que tenham olhos para ver o que está explícito ou implícito nas ações humanas. Agora questiono, é necessária uma faculdade para isso? Não, não é. Todavia, quatro anos sentado diante de mestres e doutores contribui e muito para a maturação dessa criticidade inerente à prática jornalística. Não diria que simplesmente contribui, mas que é evidentemente obrigatório o convívio da universidade. O dialogar e o refletir nunca terão lugar numa redação de jornal, como julgam grande parte dos jornalistas, num ato de absoluta ignorância e nostalgia, pois se trata de local dedicado à prática, não à reflexão. Um jovem que queira aprender jornalismo e não deseje entrar para a faculdade, numa redação irá aprender os macetes do ofício, compreenderá a lógica da pauta, dos lides, das reportagens, etc., mas não saberá qual seu papel na formação de seus leitores.

A prática jornalística é, sobretudo, um exercício de socialização. Na faculdade não aprendemos apenas a produzir o texto e veiculá-lo, pois a ação começa muito antes. Tem início em nossa própria visão de mundo. É na universidade que temos a formação necessária para observarmos com maturidade uma sociedade carente de acertos. Somos submetidos a questões sociológicas, antropológicas e filosóficas, e o exercício jornalístico advém da assimilação destes saberes. Fazer jornalismo não é simplesmente ver e escrever: é interpretar e formar. O jornalista, mais que qualquer outro profissional, é responsável pela construção da realidade de seus leitores. Quem o lê se adapta aos acontecimentos transcritos, assimila o conhecimento. O jornalismo, independente de diploma, é responsável por toda a evolução sociocultural do homem.

Muito há que se discutir ainda, pois como afirmei, há princípios que se opõem nessa questão. Qualquer um pode estar provido de preceitos inerentes ao jornalismo, mas somente na faculdade tais excentricidades poderão ser fundamentadas. Em contrapartida, não é a sala de aula que irá formar o jornalista, pois este já vem dotado das características que descrevi anteriormente. Por tudo isso, abstenho-me de tomar um dos lados, negando a existência dos argumentos opostos.

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

As injustiças da Justiça


O caso Dantas já está dando nos nervos, sei lá, cansou. E cansar é talvez a principal razão pela qual a sociedade não se manifesta mais em defesa do erário público, não temos tempo para isto. No entanto sempre acontece algo que traz a tona o assunto. Desta vez, o TRF processou 134 juízes que apoiaram De Sanctis em manifesto a favor do juiz paulista. É uma crise institucional sem precedentes, segundo o jornal “O Estado de São Paulo”.

O fato é que em 8 julho de 2008 a PF deflagrou a operação Satiagraha e prendeu o banqueiro Daniel Dantas, Celso Pitta, Naji Nahas e outros 14 acusados de crimes contra o sistema financeiro. Todos nos sentimos um tanto realizados, afinal parece que a justiça finalmente estava prendendo os “colarinhos brancos”. O constante clichê “só pobre e preso no Brasil” parecia desfeito. Mas não, a corte mais alta de justiça, mais exatamente o presidente do STF, Gilmar Mendes, manda soltar Dantas em 10 de julho. De Sanctis manda prender novamente e, da mesma forma, ele é solto por ordem de Gilmar Mendes.

Sinceramente não importa exatamente as insubsistências do processo, ou suas falhas. O que importa realmente é que enquanto os juízes, senhores absolutos do direito, brigam entre si nessa disputa de egos, os criminosos, cada vez mais, sentem a impunidade e ficam livres para atacar e fazerem suas estripulias. Pior que isso é que quando um juiz, espero não estar errado em meu julgamento, resolve finalmente trabalhar em favor da ordem pública, seu superior simplesmente não dá respaldo algum e age na desconstrução de um processo de punição aos visíveis culpados.

Talvez eu não esteja errado em meu julgamento, afinal 134 juízes não apoiariam De Sanctis sem pelo menos uma pequena análise da atuação do companheiro. Claro que, talvez a razão real deste apoio seja a manutenção de seus poderes supremos em suas regiões, ameaçados com a interferência do alto escalão em suas atuações. Mas independente disto o que realmente choca, nas duas possibilidades, é a latente preocupação das partes em manter seus egos em alta, seus poderes intactos. Isso não nos deixa muita esperança quando percebemos o judiciário ser retratado na mídia mais pelas disputas e desvios de ética em detrimento do seu principal objetivo que é a justiça a serviço de todos os cidadãos de bem.

Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

O FIM DO COMUNISMO



Apesar do desejo da literalidade do título acima, não trato aqui do fim real do comunismo, tal como a queda de um regime. O fim do comunismo – sonho notório – dá-se, impreterivelmente, com a derrubada constante das ideologias passadas. O andar cotidiano do capitalismo, os avanços comunicacionais e a industrialização de tudo o que existe tende, incondicionalmente, a corroborar com o fim das bandeiras vermelhas. Não que seja o fim de Karl Marx e seguidores, pois isso não contribuiria com a história e com o bom senso das ações que a humanidade deve seguir, mas sim que é o esquecimento de sistemas sociais utópicos. É o fim dos sonhos inalcançáveis que não levam em conta os anseios humanos, e aqui uso de Nietzsche, para quem a moral imposta pela sociedade – que tende a ser ainda mais forte em um sistema como o comunismo – é uma moral para os fracos, que coíbe o homem de agir de acordo com seus desejos.

Mas o que nos leva a refletir sobre o ocaso e fim do sistema socialista é a abertura de velhos e fortes casulos, de países comunistas que se fecharam para o mundo do consumo. Uma década antes do fim do século XX pudemos ver o fim do que seria o maior e mais forte reduto comunista, a União Soviética. Hoje, vimos uma China cada vez mais aberta aos frutos do capitalismo. E não deixemos de ressaltar que, uma vez aberta ao mundo da comunicação sem fronteiras, nunca mais a censura poderá ser imposta como antes. Assim, mesmo que ainda haja muito de comunismo – num termo inválido, pois os chineses nunca viram o comunismo de Karl Marx – muito já foi feito para que o país retrocedesse a esse sistema.

Não obstante o quase fim do comunismo chinês, as quase duas décadas do fim da União Soviética, o comunismo ainda vive em pequenas e desimportantes ilhas, como é o caso da Coréia do Norte e de Cuba. No entanto, apesar daquele país ainda estar mantido num invólucro de comunismo fajuto e tirano, este tem grandes chances de abrir-se ao mundo. Cuba certamente, com o quase fim de Fidel e seu irmão, levará vantagem nessa abertura devido à sua boa localização, e suas riquezas culturais e naturais. Ocaso, quase fim do comunismo na ilha de Fidel.

Para acalentar ainda mais as contradições desse mundo ingênuo envolto em retóricas, o comunismo, nos dias atuais, surge como produto artístico e cultural. Em suma, o comunismo atrai turistas, ou seja, hoje é um produto comercial. Assim, podemos gozar de uma visitinha ao país caribenho, marcado pelo atraso que anda junto ao sistema socialista, ao país oriental com sua histórica e cruel revolução cultural ou até mesmo ao país de Lênin, Trotsky e Stálin. O comunismo, há anos, foi engolido pela máquina capitalista, que assente aos desejos humanos.

Falta pouco para vermos o fim verdadeiro do sistema marxista, restam apenas anomalias criadas através da triste patologia humana: a ideologia. Veremos o fim de idealismos e idealistas incorrigíveis, sonhos e sonhadores lunáticos. Mas veremos, também, o caminhar ensandecido da humanidade, fugindo do ridículo e recaindo na banalidade; eliminando a fantasia e entrando de vez numa realidade mórbida e infeliz.

Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Mensagens eletrônicas - aflições cibernéticas

Somos diariamente acossados por um turbilhão de mensagens cibernéticas de amor, de nostalgia, de paz, etc. Ao som de antigas canções, populares ou eruditas, as mensagens quase sempre carregam um tom sentimentalista. Somos incitados a amar nossos pais, a dar mais tempo a nossos filhos, a não sermos tão metódicos, a enxergar os detalhes do cotidiano, a rezar e a sermos solidários. Há, ainda, as mensagens bem-humoradas, as quais nos tiram da alienação a que somos imersos no trabalho. As correntes de mensagens eletrônicas, de qualquer gênero, acabam fazendo parte do cotidiano de quem navega na internet, seja a trabalho ou lazer. Recebemos e-mails de amigos que, por sua vez, recebem de outros amigos, que recebem de outros e outros, quase que infinitamente. Enfim, as mensagens religiosas, educativas, humorísticas e de apelo social chegam a internautas de várias partes do país e do mundo, criando um vasto ambiente comunicacional.

As informações transmitidas, no entanto, são fadadas ao senso-comum, sem nenhum cunho ou embasamento científico. Assim, tanto temos acesso aos pensamentos de Platão e de Nietzsche – que, obviamente, ficam descontextualizados -, quanto aos pedantismos da auto-ajuda de Lair Ribeiro e Augusto Cury. Trata-se de mensagens sem autores, ou com atribuições infieis aos mesmos. Lemos textos “assinados” por Arnaldo Jabor (o autor preferido desses internautas), por filósofos e religiosos. São orações ritmadas por Mozart, Vivaldi ou Strauss, ou são frases feitas, lugares-comuns, ao som de U2 ou Bon Jovi. Apelos nostálgicos evocando o belo passado ou então os momentos perdidos em decorrência da correria do dia-a-dia. Mas não são apenas mensagens e canções, as imagens também contribuem ainda mais na transmissão dos sentimentos.

Vêmos crianças pegando comida do chão, rostos que nos transmitem a dor da fome, da miséria. Somos invadidos por um desespero avassalador ante as histórias de massacres, tantas iniquidades cometidas pelos homens. As imagens agem com maior crueldade por retratarem quase que fielmente o momento de dor. Não bastando som e mensagem, a força da foto impede a ação da indiferença. Não temos para onde fugir, somos acometidos assim pelo sentimento desejado pelo emissor. Náusea e lágrima, sorriso ou reflexão.

Pouco podemos mensurar sobre as consequências de mensagens assim no cotidiano dos que tem acesso à internet. Tanto a transmissão quanto a recepção são momentos individuais e íntimos. Isolados, lemos, vemos e ouvimos conteúdos que nos absorvem, levando-nos a um estado jamais atingido com a televisão e o rádio – meios cujas informações sobrepõem-se às outras, impedindo o momento de reflexão – e os meios impressos, devido à pouca profundidade e a não presença do som. As correntes de e-mail, por fim, como retribuição ao sentimento transmitido, cobram a propagação de sua existência. Assim, também devemos enviar a nossos amigos, que também enviarão aos seus contatos, até que o sentimento ultrapasse as fronteiras dos países. Enfim, o amor, o ódio, o pensamento e a religiosidade atingem milhões, necessitando apenas de Power Point e de um endereço de e-mail.

Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Jornalismo e outras reflexões


Em meus poucos mas relevantes anos como estudante de jornalismo muitas coisas perpassaram por minha mente sem que eu ao menos desejasse. Em verdade, queria apenas viver tranquilamente, sem pensar em sandices que nada cabem a mim. O fato é que, dentre as elucubrações por vezes doentias de meus professores, um ou outro aluno vomitava palavras absurdas que levavam-me, quase sempre, a um desespero suicida. Por vezes, devido ao alto grau de ignorância, minha vontade de suicídio transformava-se em ânsia por extermínio em massa. Sei o quanto parecem doentias essas manifestações, mas não sofro por isso: para que não se caia em depressão, loucos devem aceitar suas patologias.

Tudo que sei é que, da mudança de universidade por que passei, muita coisa pude aprender. As percepções acerca das coisas mundanas entre meus colegas de uma e de outra faculdade eram quase sempre distintas. Creio que, salvo engano por ter convivido muito menos intensamente com uma das turmas, muitos colegas assemelhavam, ou o eram, crianças recém-saídas do colegial. A maconha, que estava longe de ser um tabu em uma das universidades, era elemento desconhecido para a outra. Não pretendo, por assim dizer, que o simples fato de fumar maconha engrandece os instintos perceptivos, mas, ao se fazer tal analogia, ela não parece tão descabida. O triste é que alguns apesar de, primeiramente, demonstrarem certa ignorância acerca das distorções do mundo, não sucumbiam às experimentações e destoavam de tantos outros que eram ignorantes por não ousarem experimentar.

A experimentação, em si, é capaz de grandes feitos. Não apoio o uso de maconha ou drogas de qualquer espécie, digo sobre as experiências acerca de tudo que envolve os desejos e as curiosidades dos homens. Posso dizer que já experimentei de quase tudo, não tenho receio do novo, do desconhecido. Jornalistas devem, para se falar com sapiência sobre o objeto tratado, vivenciar o mesmo.

Dito sobre as experimentações, outro ponto relevante e que deveria ser intrínseco ao desejo besta de ser jornalista é a insatisfação. Nada mais óbvio: jornalismo é uma máquina de mudança que, nas mãos de um banana e, claro, de um capitalista, pode ganhar contornos assombrosos. Nestes anos - poucos para uma vida inteira, é verdade - todos os meus amigos criativos e dotados de uma grandiosa bagagem cultural são verdadeiros insatisfeitos, eternos angustiados; depressivos com os desígnios da raça humana. A simples monotonia do passar dos dias é fator acabrunhante, terrível. O tédio invadi-lhes a cabeça, os braços, as pernas, toma conta de todo seu ser.

Diante de tais sensações, a insatisfação torna-se generalizada. A política, a cultura, enfim, tudo que move a sociedade carece de ajustes, para um andar mais belo e correto. Por assim pensar, vemos que cobrir desfiles de modas não é nada relevante. Arrogância a minha, não? No entanto, isso não serve para mim e nem a esses chatos amigos.

Pensar o jornalismo é refletir sobre as mesmices cotidianas: o transmitir de notícias sem valor social algum. As concepções de importância de tantos colegas de curso, do primeiro ao quarto ano, são vagas. É o noticiar de uma morte no subúrbio, por motivos pessoais e até mesmo infantis; é o interessar-se pela rotina de um vendedor de frutas, pela vida intima de uma personalidade, etc. É uma retransmissão dos afazeres diários, dos acontecimentos comuns a qualquer cidade. No entanto, os problemas sociais que carecem de lugar na mídia são por ela rejeitados. Os jornalistas não sabem ou não querem suscitar discussões nas sociedades. Falta, como já expus, insatisfação.

Nesses anos como estudante de jornalismo, minha turma e eu muito fomos instigados a lermos jornais, assistirmos noticiários, etc. A busca por informação, segundo nossos professores, deveria fazer parte de nossa vida. Porém, as boçalidades noticiadas nunca me chamaram atenção. As discussões relevantes que deveriam cobrir ao menos 50% de um jornal não ganham nem 10%.

Na faculdade, no mercado de trabalho, em todos os lugares falta insatisfação. Muito se fala de objetividade, de imparcialidade, etc., mas estas são discussões que fazem, a meu ver, parte de um terceiro ou quarto plano sobre como e o que o jornalismo deve ser. Somos, enquanto comunicadores, construtores da história, desmistificadores. Questões relevantes devem ultrapassar as barreiras da academia e cabe a nós que isso seja feito.

Há numa sociedade inúmeros problemas que devem ser discutidos. As drogas, o racismo, a miséria, a eutanásia, o aborto, as células-tronco, em suma, todas as desigualdades sociais e tabus devem ser quebrados para que se chegue a uma sociedade equilibrada. Assim, não basta ter curiosidade e saber escrever. É preciso interpretar, ver a sociedade com olhos inquietos. É a escolha da pauta que diferencia o bom do mau jornalista. E, certamente, para os que não veem disparidades, nem tampouco se abrem às experimentações, o mau jornalismo é destino garantido.


Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008

O mesmo natal todo ano


Todo fim de ano é de intenso déjà vu. Dezembro remete-me às velhas e entediantes canções natalinas, às lindas montagens da Globo feitas em cima do: “hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou”. Quando criança via e ouvia tudo com um sorriso bobo que só os inocentes podem ter. Mas, hoje, tudo o que sinto é o tédio. Fim de ano é o esquecimento de todos os destemperos de um ano inteiro; ignora-se as intrigas, põe-se fim às intolerâncias, vive-se uma semana de amor, de paz, de fraternidade etc. Homens e mulheres ensaiam a tolerância, abraçam inimigos, perdoam desafetos. Tudo lindo, como sempre. Os homens têm, enfim, uma data para conviver em harmonia.

Certamente quem inventou o natal era provido de boa vontade. Depois de tantos e tantos dias de guerras, de palavras avassaladoras, de socos e pontapés, uma semana cuidaria de trazer novamente a paz aos homens. O natal serviria para dissolver as indiferenças, preparar terreno para um próspero e feliz ano novo. Daí a repetição entediante. A ceia é o momento da confraternização, um momento único, quando depois de quase 360 dias as famílias conseguem finalmente reunir seus pares.

Pouco posso dizer da hipocrisia do natal, pois, sendo homem, faço parte desse ritual penoso. Fugir à data seria quase um sacrilégio, uma decepção para todos. Não fazer parte do natal é aderir não apenas a 358 dias de intrigas, revoltas e guerras, mas sim aos 365 que compõem o ano. Seria uma fuga à falsa ou verdadeira conciliação. Infelizmente, aos homens, tornou-se mais conveniente a guerra o ano inteiro e o perdão no natal. Um 25 de dezembro forjado, uma confraternização comercial.

O natal coube bem a um mundo de pressa e de conflitos. É o dia em que os vizinhos são toleráveis, familiares tornam-se até mesmo simpáticos. Troca-se presentes com um sorriso forjado pelo álcool da champagne. Todo fim de ano é igual. O mesmo natal, com a figura do papai generoso, do sentar-se à mesa com a família. É todo ano a mesma coisa. O mundo parece que, a medida que cria suas guerras, constrói também seus momentos de paz, absolutamente temporários, é claro.

Passarei o natal em casa, como nos 20 anos anteriores. Novamente a velha sensação de amargura pelo dia construído por hipocrisias. Serão beijos e abraços, um feliz natal, um próspero ano novo. E virão novamente as mesmas intrigas, os velhos conflitos, esperando o próximo fim de ano para que todos voltem à paz.

Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

sentimentos ESCABROSOS




















O mundo nunca viu tamanhas escabrosidades. Os homens já não sabem o que dizem, e quando dizem são sentimentos bizarros, ininteligíveis, abstratos. A contemporaneidade é permeada de riscos, de manchas obscuras que tornam até mesmo a arte abstrata a mais fácil entendível manifestação. São pichações, telas repletas de manchas, de fantasmas do cotidiano, tudo tão boçal. Realmente, como previa certo barbudo séculos atrás, “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. A alma humana, nestes tempos de ócio, de pressa, de loucura, não capta mais a beleza que se podia ver anos atrás.

A arte é feita de sentimentos, assim, a beleza do amor era transcrita em belos livros, exprimida em belos quadros. Não havia manchas, o sentimento podia ser entendido. Os beijos, os abraços eram precedidos por olhares sinceros. Doce época em que o homem temia apenas a si mesmo. O caminhar das horas não os levava a essa febre horrenda e vazia. Chorava-se por paixão, morria-se pela amante. A arte de nossos tempos perdeu-se na imensidão de um mundo sem fronteiras. Hoje apóia-se a feiúra, esparrama-se tintas, diversas cores em paredes, em chãos, o céu torna-se preto, as belas tonalidades viram cinza.

As razões dessas existências escabrosas são, como elas, inexplicáveis. Como dizer que o homem desconhece o sentimento, exprimindo-o na primeira palavra. Os riscos em quadros e paredes assemelham-se a palavras que não podem ser ditas. Inventa-se novos meios de desafogo, bizarros e horrendos. O homem pratica sua arte, como sempre, descrevendo seus sentimentos. No entanto, quais sentimentos? Outros tantos aplaudem, admiram esculturas de monstros assustadores, quedam-se ante telas onde a tinta imita ossos emendados, pesadelos do dia-a-dia.

Outrora via os campos de trigo, hoje vejo os riscos na parede. Tempos de uma Monalisa perdida graças às insanidades e os sentimentos desconexos de homens banais. A banalidade do homem nunca soou tão escabrosa. A beleza, excomungada, cede espaço à feiúra contemporânea. Morre a arte, morrem os sentimentos, morrem os homens.

Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

Umbanda, samba de roda, capoeira e feijoada – uma semana dentro da cultura afro-brasileira


Um país miscigenado, marcado pela diversidade de rostos, de credos e de artes. A cultura brasileira está longe de uma definição, é uma manifestação de povos e povos, de lugares que se encontram num mesmo cenário. Toda essa mistura acarretou na imagem de um povo alegre, com seus sons e crenças próprios. Temos a imagem do samba de roda, do gingado da capoeira, dos terreiros de Umbanda e Candomblé, da feijoada, do acarajé e do vatapá, todas essas quando não símbolos maiores da cultura nacional, ganham forma e vida em solos brasileiros e, assim, perfazem o sincretismo artístico e religioso de nosso país. Foram as manifestações dessa cultura, uma fusão de europeus e africanos, que busquei e vivi durante uma semana.
Em um terreiro de Umbanda
Entrar num terreiro de Umbanda trouxe-me o tão esperado contato com o novo; as cantigas e as danças que juntos evocam orixás ou espíritos implicavam numa recôndita paz. A religião que nesse 15 de novembro celebra seu centenário perfaz o sincretismo religioso e cultural brasileiro. No ritual, assistido numa calma sexta-feira, a imagem de Jesus – Oxalá no Umbanda - tomava a parte mais elevada do altar, abaixo seguiam-se as figuras de Iemanjá e Ogum, representações que se assemelham a santos da religião Católica, como este que em São Paulo também é chamado de Santo Antonio e aquela Nossa Senhora dos Navegantes. Ainda se vêem as imagens de Cosme e Damião (ibejis: gêmeos amigos das crianças), ambos festejados pelas duas religiões.
Os atabaques, neste instante, traziam ritmos que embalavam histórias de homens e mulheres, os escravos, pretos-velhos, caboclos, ciganos, dentre outros. Nesse dia os entes evocados eram os pretos-velhos, escravos africanos que morreram de velhice, dotados de uma poderosa sabedoria. Sentado, tentando o melhor ângulo para uma foto, mal vi uma das mulheres a se aproximar, perguntando-me se queria tomar o passe. Prostrei-me diante de uma senhora, absorvida em suas meditações tragava calmamente seu fumo de corda. Tomei o passe, levantei-me e se seguiram novas cantigas, acabando a celebração.
"Foi há cem anos, em Minas Gerais, com Zélio Fernandino de Morais que isso aqui teve início", conta-me, logo após o rito, Pai Roberto D’Ogum, presidente da casa na qual tive meu primeiro contato com a religião que, século passado, influenciou alguns de meus mestres, como Gilberto Freire e Vinícius de Moraes. A dúvida que restava era quanto às representações no altar. E é o historiador Valderez Antonio da Silva quem me explica: para ele, há duas versões para essa junção entre santos católicos e divindades oriundas da África. "Talvez uma saída que os africanos arranjaram para terem seus deuses aceitos; outra hipótese é oposta, pode ser uma forma que a Igreja encontrou para explicar a crença cristã, comparando seus santos às entidades das religiões africanas", conta.
Apesar das diferenças entre Umbanda e Candomblé, é nesta que aquela encontra sua raiz, sua origem africana. Foi no terreiro de Candomblé de Mãe Menininha, na Bahia, que Jorge Amado, Caetano Veloso, Dorival Caymmi e Gilberto Gil conheceram a religião originária da África. Hoje, brancos e negros, pessoas de todas as etnias e classes sociais têm a Umbanda e o Candomblé como sua principal religião. "Aí está a grande vitória do povo africano, após anos de sofrimento, o branco ganha seu gingado, rende-se à sua cultura", diz, também rendido, Valderez Antonio.
O samba, a capoeira e a feijoada
"O gingado", as palavras do historiador remetiam a outros recantos, às manifestações que também compunham o rol de eventos os quais pretendia vivenciar. Era o samba de roda, era a arte da capoeira, ambos encerrados pela mistura que nos trazia a feijoada. Pude, então, ver o pandeiro, o atabaque, o berimbau, o requebrado das morenas. "‘Quem não gosta de samba, bom sujeito não é’ dizia Dorival Caymmi, como não concordar, disse ao rapaz mais próximo. O samba ali demonstrava a união, a alegria presente em toda a cultura afro-brasileira: a roda de samba, de capoeira ou até mesmo a roda no terreiro de Umbanda".
Das religiões, dos ritmos que pulsam no coração brasileiro, das cores que alegram e nos distinguem dos demais, pouca coisa é nacional sem ser afro-brasileira. O aroma da feijoada, o forte sabor da carne e do feijão preto, atenuadas pelo doce sabor da caipirinha, acompanhavam o dialogar, o escrever, e o conhecer sobre essa cultura. Num destes momentos, Valderez Antonio, o historiador que me acompanha nesta semana de contato com a maior das culturas nacionais, cita-me Caetano Veloso, outro apaixonado por tais manifestações. É com ela, parte da canção "Milagres do povo", que encerro:
"É no xaréu que brilha a prata luz do céu
E o povo negro entendeu que o grande vencedor
Se ergue além da dor
Tudo chegou sobrevivente num navio
Quem descobriu o Brasil?
Foi o negro que viu a crueldade bem de frente
E ainda produziu milagres de fé no extremo ocidente"


Sexta-feira, 7 de Novembro de 2008

O país onde a esquerda é democrata

Obama e McCain: a nova e a velha direita

Os Estados Unidos não é apenas a nação mais rica, mais evoluída em todos os setores sociais, com algumas das instituições mais sólidas do planeta. O país é o símbolo de que o capitalismo é o melhor sistema econômico já criado, e que a democracia é a organização social mais humana. Todos estes fatores são facilmente exemplificados em suas eleições presidenciais. Ali, temos o partido conservador, os republicanos, representantes da moral cristã, de um nacionalismo quase sempre utópico. De outro lado, temos os democratas, estes que trabalham em nome do progresso, de uma intervenção maior na economia, por um Estado mais forte em nome da sociedade, que quebra as barreiras do cristianismo, do que é firme e duradouro por se parecer o mais ameno ao bolso da velha “aristocracia”.

Enquanto os republicanos representam Deus e a moral cristã, os democratas representam os homens e suas ambições, a quebra de tabus. O aborto, a intervenção do Estado na economia, medidas de distribuição de renda, são alguns dos temas que opõem ambos os partidos. Os republicanos, segundo a denominação mais comum, são os chamados “direitistas”; e os democratas, os “esquerdistas”. Entretanto, apesar do Partido Republicano representar ideais mortos e peculiares à direita de séculos atrás, o Partido Democrata está longe de ser o que se entende por esquerda na América Latina.

A eleição de Obama para presidente alegrou Fidel, Chaves e cia, entristeceu a velha direita. Olavo de Carvalho, durante toda a eleição, atacou o agora presidente americano, para ele o democrata representa a esquerda mais cínica e demagoga. Segundo Olavo, Obama tramou de tudo para chegar à presidência, o filósofo brasileiro acreditava numa conspiração para levar o democrata ao poder. Pura imaginação fértil. Apesar de leitor assíduo de Olavo, torna-se difícil acreditar em elucubrações como estas.

Barack Obama e o Partido Democrata estão longe de representar a esquerda tal como conheço. Todos me viam nesta eleição como um opositor do democrata, nunca fui. Acredito apenas que Hillary Clinton seria melhor, pois as palavras de Obama soam, por vezes, a mim, como pura demagogia. Os Estados Unidos, até mesmo na ideologia presente em seus principais partidos políticos, consegue ser superior ao resto do mundo. No país onde a direita é velha e ingênua sem ser prejudicial, a esquerda representa a nova direita. Os democratas, com Bill e Hillary Clinton, Obama e Al Gore representam os homens e não ideais utópicos, trabalham o bom senso e não a barata ideologia esquerda.

Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

Maravilhosas e cruéis palavras de Gerald Thomas

SEJA UM IDIOTA


Tenho estado num estado bastante “ofegante” e “ofendido”. O leitor deverá perguntar: Por que ofendido? A resposta não é simples. Bem, talvez seja. Tenho relutado em escrever esse artigo assim como tenho pensado muito se devo ou não manter um blog e, assim como cada homem, mulher, criança, mosca, mosquito nesse planeta, emitir uma opinião, sentimento, sensação, publicar BlogNovelas, roteiros, berrar contra as VERDADES ABSOLUTAS, publicar minhas próprias mentiras… Ou seja, tentar vaga para síndico nessa Babel Virtual e inadministrável de nicknames onde ninguém é ninguém, mas todos sabem de tudo. UFA!

Hugh Hudson é um dos poucos autores-diretores de cinema do mundo. Inventor de técnicas lindíssimas, ele conta ‘coisas’ épicas terrivelmente cruéis, românticas e históricas (mortes, guerras, o sofrimento humano, o eterno retorno ou a eterna busca do filho ao útero universal). Hugh está sempre contando a mesma estória, através de seus filmes, seja o tema qual for. O ‘underdog’ – o fodido – é sempre aquele que acaba por contar a saga, desde Al Pacino em “Revolução Revisitada” (que filme deslumbrante, deus do céu!) ou o garoto Tarzan, filho de aristocrata, criado por macacos na África e que vira um “primitivo” e quase é abatido pelos snobs. O mesmo acontece em toda sua obra, assim como na obra de Beckett, seus personagens, apesar da troca de nome, são um só, ou seja, o próprio autor.

Claro que Hugh é humilde e rejeita essa noção. Mais humilde sou eu, e eternamente grato por essa amizade. E? E o quê? E bestificado com a imprensa brasileira que ignorou sua presença aqui para não sugar da experiência do diretor de “Carruagens de Fogo” seu conhecimento DE VIDA, afinal esse cara ainda é de extrema influência num lugar no mundo que se chama Grã-Bretanha e ramificações!

Bem, nessa minha saída do mundo virtual não quero culpar ninguém a não ser eu mesmo. Tem sido fantástico. Nos últimos dias as conversas tem sido maravilhosas. Mas o que tenho visto, vivido, decepcionante. Ninguém do meu próprio elenco apareceu no debate com o Hugh. Claro, devem ter tido mais o que fazer. Digo, coisas mais importantes. Devem saber tudo sobre a Guerra da Independência Americana (justamente agora, às vésperas de uma outra espécie de “guerra da independência” que acontece dentro dos USA, a eleição de Obama). Claro, essa é a cara de um elenco moderno e informado. E isso me leva às lágrimas e ao desespero.

Nesses dias de eras turbulentas, temos muito o que fazer. Estamos muito ocupados. Todos. Imagino. Cada um tem um blog para administrar. Cada um tem um livro para publicar, virtual ou não. Cada um tem um novo software para instalar, uma viagem programada antes do final do fim do mundo. Ninguém ainda acordou para o fato de que CULTURA… TER CULTURA AINDA É A ÚNICA ÂNCORA REAL QUE TEMOS PARA NÃO SERMOS ENGANADOS, assim como somos enganados em portais como esse, com entrevistas falsas mentirosas, encomendadas, como foi aquela do Lula há uns dias! Um nojo!

Bom exemplo nos dá o Alan Greenspan. Anos e anos no topo lá do Federal Reserve, pintando e bordando. Até que, na quinta passada, três anos depois de ter saído do Fed, o homem admitiu ter colocado muita fé no poder auto-corretivo do mercado financeiro. Olha só que loucura! Como pode um homem, cuja postura coporal, maneira de se comportar fisicamente e expressão facial, valia pontos no Dow Jones, cuja forma de andar (no dia em que ele dava seu speech, logo ele casado com a repórter da NBC Andréa Mitchell), a forma de se comportar era analisado e isso em si já era “jogado” na bolsa: como pode ele agora dizer que ADMITE alguma coisa? Depois do CRASH, depois disso que já está decididamente se tornando uma das maiores dores de cabeça da HISTÓRIA (até pro Lula Blindado), Greenspan se torna “humilde” e retira suas cagadas. Wow! Ele mesmo declarou que está num estado de choque e… Haha!

Eu ia escrever um artigo enorme sobre o Paul Krugman que conheço, remotamente, há anos. Mas não gosto de sites, portais, etc, que mentem. Me sinto mal. Não vejo propósito. Se é para continuar a escrever, posso sempre abrir um myspace, yourspace, ourspace, nospace or some fucking space ou qualquer merda dessas. Ou simplesmente escrever para mim mesmo, como 3 bilhões de pessoas fazem.

Eu ia, também, descrever momentos de um mais-que-maravilhoso jantar com o Reinaldo Azevedo. Mas… Para que seja tudo distorcido? Sorry, estou sem energia para isso agora. Anotei algumas coisas e os momentos mais preciosos serão guardados para momentos mais preciosos (com a autorização do próprio).

Ontem, num vôo, tive o imenso prazer de encontrar com o Jabor, que amo. Difícil ter conversa mais interssante e mais íntima. Nos conhecemos há sei láa quantos anos e… sei lá quantas coisas temos em comum. Feliz da vida, ele vai voltar a rodar um filme. Fomos das origens da Al Qaeda até o fato de que hoje ninguém sabe nada mesmo e não adianta. Ele foi muito gentil em me mandar 2 de seus filmes que assistirei no vôo de volta pra NY. Num de seus sites achei o exemplo ideal do que somos hoje, do que seremos amanhã.

“SEJA UM IDIOTA

A idiotice é vital para a felicidade.

Gente chata essa que quer ser séria, profunda e visceral sempre. Putz! A vida já é um caos, por que fazermos dela, ainda por cima, um tratado? Deixe a seriedade para as horas em que ela é inevitável: mortes, separações, dores e afins.

No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota! Ria dos próprios defeitos. E de quem acha defeitos em você. Ignore o que o boçal do seu chefe disse. Pense assim: quem tem que carregar aquela cara feia, todos os dias, inseparavelmente, é ele. Pobre dele”. (Arnaldo Jabor)

Pois é. Quando me olho no espelho ou para a tela do computador percebo que não tenho mais vida. Percebo que está tudo enfiado aqui dentro. Será isso que quero para mim? Será isso que queremos para nós?
Pensem bem. Sentados diante de telas o dia inteiro na ilusão de que o mudo está aqui dentro enquanto que, na verdade, essa coisa virtual já nos pegou de tal forma que não sabemos mais se somos daltônicos, insensitivos, gelados, compulsivos, exibicionistas, atores sem palco, diretores sem elenco, escritores sem páginas e pintores sem tela.
Vivemos num vácuo que nem astrônomos conseguem explicar, porque, como diz o dito popular, o buraco é mais embaixo.

Do blog de Gerald Thomas