quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Mundo desumano: aonde anda a razão?
















Dos primeiros passos do homem na lua ao desastre no Haiti, um espaço de décadas denota os muitos avanços da humanidade, mas sempre em contraste com fatos que nos mostram a eterna miséria em que vivemos. Não falo da miséria da fome, pois esta não acomete a todos os homens, mas da penúria da razão, do pensamento. Ou seja, trato de nossa indigência e vazio intelectual.

A tragédia que ocorreu dias atrás no Haiti me faz cometer a blasfêmia de duvidar da razão. Sim, estariam absolutamente errados os positivistas franceses e até neopositivistas, como o italiano Norberto Bobbio e o brasileiro José Guilherme Merquior. Em verdade, a razão não existiria, é uma mera utopia peculiar ao que Freud poderia chamar de um infeliz sentimento de superioridade do homem.

Pois sim, a razão deveria nos levar a um progresso constante, em busca de um viver mais harmônico, sem que se recaia em fantasias como as de Thomas More. No entanto, como essa mesma razão pode nos sonegar uma realidade tão acabrunhante quanto a miséria em um país tão miserável como o Haiti? E pior, como a ciência, irmã da razão, pode levar-nos à lua, refutando a existência de um traço tão patente de nossa pobreza? E, em suma, como o progresso distancia-se de si mesmo em tão alarmante medida?

A essas perguntas respondo com um prosaico e pífio “não sei”. Em verdade, essa é a grande essência dessas linhas: um singelo não saber, que exemplifica a leviandade do homem em relação ao Haiti, à África ou à miséria em todos os cantos. Realmente não sabemos como agir, ou, simplesmente, esquecemos. Todavia, ao pensar assim, através da imagem da bondosa brasileira Zilda Arns, vitimada pelo terremoto nessa pobre ilha na America Central, noto que nem todos se esquecem de como agir.

Dona Zilda, como concluiu bem Eliane Catanhêde, é um retrato de tudo aquilo que desejamos ser, mas acrescento: nunca seremos. No entanto, a médica e sanitarista, ao ajudar milhões de crianças em todo o mundo, quem sabe não guiara-se em nome apenas da razão, mas também do amor. Ou, como ouvi de um professor meses atrás, buscou o que ele tenta arduamente conseguir em seu dia-a-dia, que é não agir egoisticamente, como já estamos habituados a viver.

O descaso dos países ricos em relação aos países pobres, e até mesmo dos governantes destas nações com seu povo, denotam o ridículo de nossa existência. Na verdade, uma existência em nome do dinheiro e do poder, não do progresso. E mais, reitera o quanto somos egoístas.

Como podemos chegar à Lua, Marte e Plutão, se somos incapazes de garantir ao vizinho do lado o mínimo necessário para sua sobrevivência na Terra? A razão deve nos levar a um progresso completo, de modo que todos possam partilhar dos sabores deste mundo. Por assim pensar, soam ridículos os passos de Neil Armstrong em nosso satélite.
Assim como beira o grotesco a destruição e a miséria no Haiti.

O que fica é que talvez nossa miséria não seja fruto apenas da inexistência da razão, mas da carência desse amor que era tão comum em Zilda Arns. Ou, se não há amor, quem sabe então seja reflexo de nosso cômico egoísmo.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O espetáculo da imprensa e a corrupção do cotidiano



O dia-a-dia de nossa imprensa parece demarcado pelo apocalipse da corrupção política. Talvez nunca tenham sido veiculadas tantas denúncias de corrupção como nos últimos cinco anos. As notícias de falcatruas de nossa classe política viraram o grande elemento de constituição de jornais e revistas. Por trás dessa pandemia tresloucada, interesses de todas as espécies: poder, dinheiro, ideologia, etc. Ou, quem sabe, o tom dado pelos jornalistas acerca da corrupção política seja apenas uma forma de retaliação ante a impunidade e o silêncio dos cidadãos. Mas, de qualquer modo, tais excentricidades perpetradas por nossa mídia podem acarretar em uma visão negativista e também apocalíptica da população em relação à política.

Não podemos medir as influências da imprensa no cotidiano dos cidadãos. No entanto, conceber que o negativismo imposto por nossos jornais e revistas influencia pesarosamente nas ações das pessoas não é nenhum desvario. Como bem afirma Contardo Calligaris (A armadilha da corrupção, 03/11/2005, Folha de SP), a imprensa, mesmo fazendo o que deve fazer, que é publicar o que ela descobre, acaba por incutir em seus leitores o lugar-comum de que todos são corruptos. Isso os inibe, segundo o psicanalista, em sua capacidade de agir.

Todavia, além do crescente espetáculo em cima da corrupção impetrado pela imprensa fazer com que os cidadãos criem certa repulsa pela política, ele é capaz de influenciar as pessoas a construírem determinadas formas de retaliação. O famoso jeitinho brasileiro, bem sabemos, é capaz ser esticado ao ponto de extrapolar com a moral. Assim, as inúmeras e corriqueiras ações dos cidadãos em seu dia-a-dia, sejam através de sonegação de impostos, de compra de produtos pirateados, de oferecimento de propina a funcionários públicos podem ser uma forma de contrapartida às ações ilícitas de nossos políticos.

Segundo antropólogos, o “jeitinho brasileiro” é uma espécie de refúgio ou saída que a população encontrou para sobreviver no Brasil. Isso oriunda dos tempos em que o país era colônia de Portugal, quando nossos índios tinham que ser hábeis no trato com os portugueses a fim de garantirem sua sobrevivência. E, hoje, é uma forma de se sustentar ante políticos e empresários.

Resta saber quem são os verdadeiros culpados, ou melhor – como, juridicamente, todos o são – quem são os precursores do sentimento de corrupção generalizada. Isto é, em um país como o Brasil, onde os políticos, os empresários e os cidadãos cometem atos ilícitos, quais são os responsáveis pela corrupção, ou, quem influencia mais essa pandemia cíclica e corrosiva.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Do ministério à presidência – duas histórias






Um era ministro da Fazenda do governo de Itamar Franco. Outra, hoje, é ministra da Casa Civil do governo Lula. O primeiro, quando assumiu o mais difícil dos ministérios, em 1993, tinha um grande desafio pela frente: acabar com a inflação. Três outros ministros já haviam sido demitidos por Itamar por não apresentarem resultados contra o grande mal que afligia os brasileiros.

A segunda assumiu em 2006 a mais importante pasta do atual governo, a Casa-Civil, substituindo o companheiro José Dirceu, denunciado por corrupção. Os desafios eram reorganizar um ministério desestabilizado pela saída de seu chefe e tornar-se o principal nome à sucessão do presidente Lula.

O primeiro, fundador do PSDB e ex-senador, Fernando Henrique Cardoso, aos poucos, se consolidou como o mais eminente homem para substituir Itamar Franco. Com um projeto econômico simples, montado com diversos amigos economistas, o sociólogo conseguiu diminuir uma inflação acumulada no ano de mais de 2700% para apenas 15%. O notável é que essa queda aconteceu em plenas eleições de 1994, e garantiu a vitória de FHC sobre Lula, hoje chefe da segunda, Dilma Rousseff.

Assim como Itamar Franco, que lançou seu mais importante ministro às eleições de 1994, Lula deseja nomear Dilma, considerada o segundo nome do governo do PT, candidata à presidência da República pelo partido em 2010.

Outra importante semelhança entre Dilma e FHC é sua posição nas pesquisas. Fernando Henrique teve de enfrentar as pesquisas que apontavam, em 1994, uma vitória esmagadora de Lula nas eleições. A ministra de Lula, hoje, aparece bem atrás do também ex-ministro, José Serra.

Similaridades a parte, o que se pode contabilizar são as contribuições dos dois ministros à atual situação política e econômica do Brasil. Fernando Henrique usou como mote de campanha sua contribuição para tirar milhões de brasileiros da pobreza ao fazer cair a inflação, ainda como ministro.

Dilma Rousseff, diferente de Palocci, não contribuiu para os avanços econômicos do governo Lula. Como plataforma de campanha, a ministra usa de importantes programas sociais, como o PAC – Programa de Aceleração do Crescimento, que é alvo de inúmeros bloqueios por parte do Tribunal de Contas, e o recém-criado Minha Casa, Minha Vida.

Todavia, diferentemente de Fernando Henrique, que tinha apenas uma obra para apresentar aos eleitores, Dilma, além dos programas sociais que ainda engatinham, tem a ligação com o que talvez seja o mais popular dos presidentes brasileiros. Necessita, para isso, que a imagem do presidente Lula seja transmitida a ela.

Apesar das semelhanças entre Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff, esta herdou de seu chefe o discurso de oposição a qualquer preço. A ministra do PT não para de explanar toda sua admirável capacidade administrativa em detrimento da incapacidade dos homens de seu governo e do anterior de fazer a “máquina andar”. Dilma afirma que, antes de Lula, existiam as trevas, e que ele a ensinou o caminho para o progresso.

Do ministério à presidência, como se vê, é um caminho fácil. Basta que se trabalhe com seriedade. O possível candidato tucano, José Serra, também fez muito enquanto ministro de Fernando Henrique.
Que se contabilize, portanto, o quanto os dois possíveis candidatos – e o próprio FHC - trabalharam até hoje. Fugindo à estratégia enganosa de se comparar o presente ao passado.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O cinema brasileiro, de Surfistinha a Lula












O ano de 2010 será inesquecível para a história do cinema nacional. Pela primeira vez, o brasileiro poderá ver na telona duas histórias peculiares à história do Brasil. Logo no começo do ano, no dia 1 de janeiro, estreia nos cinemas de todo o país Lula, o filho do Brasil. Alguns meses depois, é a vez de O doce veneno do escorpião, filme baseado no livro homônimo de Bruna Surfistinha.

As semelhanças entre Lula, o filho do Brasil e O doce veneno do escorpião são poucas, apesar de muitas. Sim, isso é contraditório, mas explico. Ambos os filmes retratam a vida de dois personagens excêntricos do país. Um conta a história de uma jovem de classe média que decide ser prostituta. Outro relata um pouco da vida de um retirante nordestino, pobre, que decide ser político. Espero que vocês entendam que a similaridade aqui fica por conta do gênero biográfico. Mas há outras analogias.

O filme que relata a vida da jovem paulista recebeu, para sua produção, mais de R$ 3 milhões de reais em renúncia fiscal. Isto é, a verba para a execução do longa foi aprovada pelo Ministério da Cultura e origina-se do pagamento de impostos. No entanto, comparado com o custo do filme biográfico de nosso atual presidente, “O doce veneno do escorpião” não saiu tão caro assim. Lula, o filho do Brasil gastou até aqui R$ 12 milhões de reais, ou seja, quatro vezes mais que o filme da Surfistinha. E a semelhança?, você se pergunta.

Uma das muitas polêmicas que envolvem o filme de Lula é a origem da verba para sua produção. De acordo com a Agência Estado, o longa recebeu verba de algumas empreiteiras, dentre outras grandes empresas ligadas ao Governo Federal. O notável é que essas empresas obtiveram ou estão para obter financiamentos de órgãos federais.

A diferença dentro da semelhança, portanto, é que o filme que retrata a história da hoje ex-prostituta recebeu verbas federais formalmente, dentro da lei. Enquanto Lula, o filho do Brasil, obteve dinheiro de modo bem conhecido por nós, brasileiros: através do famoso jeitinho brasileiro de burlar a lei, ignorando a existência da moral.

Em suma, debruçamo-nos até aqui numa analogia entre os dois filmes, seja por seu caráter biográfico: ambos se basearem em filmes sobre as duas personalidades – sim, o longa sobre Lula é baseado também em livro homônimo, de Denise Paraná. Seja também pela semelhança no ano de estreia e na origem infeliz da verba para suas produções.

Aguardemos, agora, para descobrir qual história comoverá mais aos brasileiros que, direta ou indiretamente, estão pagando pelas duas obras. Qual vida entreterá mais o público, a do nordestino pobre que se tornou político ou a da menina de classe média que virou prostituta? Esperemos para ver se as semelhanças param por aqui.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O que é Lua Nova?




Creio que poucas obras refletem tão bem a atualidade como os filmes Crepúsculo e Lua Nova. Do primeiro, não tenho porque me queixar, pois não o assisti. Infelizmente, o mesmo não me aconteceu com o segundo. Fui induzido a cometer o tão insidioso ato de assisti-lo em nome da boa relação humana. Lua Nova agora vai ser o meu pesadelo de 2009. Quando lembrar-me desse ano algum dia no futuro, lembrarei do quanto o mundo já estava corroído por obras superficiais e baratas como o referido filme.

O grande problema, devo salientar, não é especificamente com Crepúsculo, Lua Nova e os outros filmes da série que ainda serão feitos. Obras como essas existem várias por aí, algumas até mesmo com atores, direção, fotografia e roteiro piores. Sei que parece impossível, mas existem sim, basta assistir aos filmes exibidos na TV Globo. O assombroso nessa série de filmes pueris baseados em livros de uma tal Stephanie Meyer é o grau de arrebatamento que ela suscita na sociedade.

Há meses não se fala em outra coisa em universidades, bares, lares e estaleiros. Fala-se de um “casal perfeito”, da beleza dos protagonistas e outras coisas fundamentais às pessoas de pouco juízo. Mas o que é, afinal, Lua Nova?

Quando pensei que tivéssemos deixado para trás esse cultivo infantil a lendas de vampiros e lobisomens, eis que essas antigas histórias ressurgem para ilustrar o amor de Bella e Edward. E, como se não bastasse, insinuando o amor impossível de uma humana por um vampiro, remetendo conscientemente à história de Romeu e Julieta – o livro de Shakespeare aparece no filme para ilustrar essa semelhança.

Lua Nova é, sem dúvida, um filme que retrata bem nosso tempo: a superficialidade e a fantasia redimindo-nos da dura realidade cotidiana. Pão e circo – nunca usei essa expressão, mas aqui ela é válida. Pensando assim, o filme tem lá seu valor.

Para os apaixonados por cinema, no entanto, fica a sensação de fim do mundo. Ninguém sabe ao certo nem a qual gênero pertence Lua Nova. Afinal, é romance sem ser romântico, é suspense sem ser um Hitchcock, é drama sem comover ninguém. Mas atrai o público como dinheiro.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

sentimentos ESCABROSOS II

Como expressar aos homens o sentimento acerca dos sentimentos? Essa, sem dúvida, é uma das grandes questões que me afligem nesses tempos. Torna-se difícil, em detrimento da loucura e da banalidade dos dias atuais, refletir sobre os sintomas de tamanhos absurdos. A arte abstrata, a qual expressa o sentimento do homem ante a contemporaneidade, apresenta-se a mim como um sintoma da própria loucura contemporânea. Assim, como entender a arte abstrata? O que deveria ser uma crítica à própria abstração dos homens é, ela mesma, uma abstração. O que deveria ser uma fuga torna-se aceitação. As feiúras nas paredes da cidade ganham telas, páginas, sons, fazendo com que a arte seja o símbolo da loucura cotidiana.

O labirinto da contemporaneidade é dotado apenas de entrada, ficando os homens a procura de uma saída, quando a mesma é a própria porta pela qual entraram. A arte abstrata é aceitação, não critica, tampouco censura. Em final de 2008, uma jovem entrou num andar desocupado do prédio da Bienal de São Paulo e, diante do vazio, expressou seus sentimentos da maneira mais apropriada a um jovem: pichando. As salas, que poderiam muito bem representar o vazio interior dos homens, foram invadidas pela abstração. O caso ganhou contornos escabrosos, tornando a história da pichação uma obra de arte: a garota fora presa, sendo solta tempos depois, após diversos protestos de artistas nacionais. A arte contemporânea revela o bizarro e é condescendente com a loucura e a banalidade de nossos tempos.

Sendo eu mesmo parte integrante dessa bucólica paisagem de assombros, expresso-me com feiúra. Pouco transmito dos sentimentos que me acometem ante as manifestações artísticas de agora. Entro, cotidianamente, nos labirintos de Jorge Luís Borges. Perco-me nos infindáveis pensamentos acerca do vazio humano e das variadas buscas por seu preenchimento fugaz. Assim, uma obra de arte que traga o sentimento em sua forma concreta, a qual assimile sentimento e entendimento, torna-se digna de apreciação.

“Big Man”, de Ron Mueck, revela fielmente a angústia do homem solitário. O parto, a velhice, o sexo, são retratados por esse artista, grande conhecedor das expressões humanas. A feiúra transmitida é palpável. Com concretude, o homem nos remonta à dor humana. Digo que pra mim isso é arte, não deturpação. Mesmo que recorramos à feiúra, que esta expresse a face da dor e do vazio, e não de uma singela parede com rabiscos.



"Big Man"

* As obras são do escultor australiano Ron Mueck.


quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A adoração dos ingênuos

Algo notório vem ocorrendo no Brasil nos últimos tempos: a veneração exaustiva e quase unânime do presidente Luís Inácio Lula da Silva. Intelectuais, artistas, políticos de oposição, etc., agora caem candidamente nos discursos e nas ações populistas de nosso presidente – ou “Nosso Guia”, como o chama carinhosamente o jornalista Elio Gaspari. O bordão “nunca antes na história deste país”, que simboliza a demagogia discursiva de Lula, não atinge mais apenas os cidadãos comuns, mas a todos. O anseio da vez agora é tentar definir a seguinte questão: quem é Lula? Eugênio Bucci já tentou, num artigo um tanto quanto limitado e que perpassa pelas ações negativas do presidente com uma superficialidade que alegrou soberbamente os assessores de imprensa do Planalto.

Devemos salientar que sempre foram assombrosas as opiniões acerca dos predicados de nosso presidente, as quais quase sempre versavam sobre a origem humilde do sindicalista, de seus discursos em nome da ética, que denegriam sem nenhum pesar a imagem de políticos malfazejos como Sarney, Collor, Barbalho, Calheiros e companhia não menos pérfida. O Lula para eles era o homem do povo e o qual, estando no poder, daria um novo rosto à política brasileira, conferindo finalmente a essa terra esquecida a alcunha de “Brasil, o país do presente”. Doces delírios? Não, seria tolo não reconhecer os avanços obtidos até aqui. No entanto, isso não confere ao presidente o título de salvador da pátria.

Eu poderia muito bem elucidar que, como maior mandatário de nosso país, eleito pelo povo, ele não fez mais que sua obrigação. Mas certamente receberia como resposta desses tantos correligionários do presidente uma débil e óbvia pergunta: e por que o FHC não fez? Elementar, meus caros, não se pode comparar um governo iniciado em momentos trágicos com um onde o começo se deu em momentos auspiciosos para todo o planeta, com países como China, Índia e Coréia do Sul em franco crescimento. E, afinal, o que se espera de um governo sucessor? Que este continue a organizar o que não foi organizado e a amadurecer o que fora iniciado. E ademais, Tolstói é Tolstói e Dostoiévski é Dostoiévski, não competindo a nós denegrir um autor em detrimento do outro. Algo lógico, não? Não, pelo menos para os ingênuos de que trato aqui.

Essa nova condição em que se encontra Lula é fruto do oba-oba atual no âmbito da economia e da política externa brasileira. Mas questiono, será que esses noticiados progressos atentam realmente para uma realidade que pode ser vista e não apenas sentida? A propaganda lulista que, sabemos bem, noticia alegremente o que ainda não foi feito - ou seja, o porvir – não incute em nossos esperançosos cidadãos – tomando os que antes se opunham ao presidente como exemplo - a sensação de que, por todas suas ações, “Lula é o cara”? Sim, a máquina hitlerista funcionava desse modo – mas não faço aqui uma analogia entre dois homens, como ele o fez há pouco com o PSDB – e o que vimos foi uma aderência cega aos discursos do tresloucado alemão. Em suma, o marketing do governo Lula insere em toda a população os sentimentos de estarem no lugar certo e na hora correta. E mais, que talvez estejamos chegando ao que os marxistas veem como “o fim da história”.

Todavia, é mais preciso chegar-se à imagem de Lula pelo próprio marxismo, basta usarmos para isso de sua dialética – método que Marx adaptou de Hegel - para encontrarmos o que há de negação no presidente. Afinal, em detrimento da ética, as alianças de Lula com os mesmos homens que ele criticava valem realmente a pena? Podemos refutar as denúncias – estas comprovadas – de caixa dois em sua campanha? A argumentação – que não vale no caso do Senador Azeredo, alvo de denúncia análoga – de que ele desconhecia o esquema do “mensalão”, mesmo quando os responsáveis pela tramoia eram seus homens de confiança? Eu sei, tudo isso já foi pisado das mais variadas formas, mas ainda sim creio que esses são fatos eternos e que serão relembrados por anos a fio como constituintes do governo mais corrupto da história – como assim definiu o ex-ministro do mesmo Lula, Mangabeira Unger.

Agora indago, adoráveis ingênuos, Lula é o político que mais contribuiu para os avanços econômicos e sociais do país? Sim, se não o fosse nada existiria nele de relevante. No entanto, este não é o mesmo homem que negou todas as acusações de corrupção impetradas contra seu governo, defendendo o bandido já preso na cadeia? Sim, pois ele se porta como o “deus” do perdão e toma em seus braços, como aliados, afilhados, etc., aqueles cujos nomes mancham o papel logo acima e muitos outros de igual renome.

Então, por fim, quem é Lula? O homem que deu ao país a dimensão dos nossos sonhos, ou, o político que engendrou na população a sensação de que a corrupção é inerente ao progresso e, como tal, todos devem refutá-la? Hoje a sensação de que o Brasil agora tem a importância que deveria ter por todas as suas potencialidades anda na cabeça dos brasileiros, assim como a percepção de que a corrupção é mal arraigado na política nacional e, portanto, desimportante.

Não tento responder quem é o presidente, pois isso ultrapassa todas as minhas aspirações de perscrutador de Lula e induz, inexoravelmente, a um pedantismo medíocre. A essa mesma retidão deveriam aderir os que pregam o brilhantismo de nosso presidente, a fim de não incorrerem na interpretação ingênua do homem político.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Babel de culturas


A metáfora bíblica decerto fora a maior das profecias – ou, simplesmente, uma constatação precoce das diferenças entre os homens. A humanidade está dividida em valores culturais e idiomas distintos, os quais talvez nunca sejam compreendidos uns pelos outros. Impossibilitados do diálogo, cegos por construções culturais diversas e etnocentristas, envoltos numa Babel de culturas, nunca será possível às nações um acordo que os leve à paz e o bom convívio.


Isso é o que pudemos perceber dias atrás, durante a Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), nas falas de líderes como Mahmoud Armadinejad, do Irã, Muammar Gaddaffi, ditador da Líbia, Hugo Chávez, da Venezuela, e companhia não menos assombrosa.


Há um misto de discursos vazios e envoltos em retórica, como os de Obama e Lula, e explanações revoltosas, como as do líder líbio. Sozinho no discurso de unidade entre as nações, o secretário-geral da ONU, Ban Kimoon, parece não compreender os desafios que tem de enfrentar. Kimoon pede a todos que tolerem suas diferenças em busca de solução para as mudanças climáticas, a pobreza e a gripe suína.


Mas eles não se entendem. Falam línguas diferentes, creem em deuses e sistemas díspares. Alguns veem na violência e na guerra seu único discurso. Deus talvez tenha errado em, além de dividir a humanidade em línguas, tê-la dividido também em culturas tão excêntricas.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A ineficácia do discurso único



O que Marina Silva e Cristovam Buarque têm em comum? Em poucos segundos podemos enumerar uma série de semelhanças entre os dois. Ambos são ex-petistas, foram chefes de importantes ministérios do governo Lula, podem ser candidatos à Presidência da República em 2010 – apesar de Buarque esboçar pouca vontade desta vez – e, o principal, os senadores fazem uso de discursos únicos: ela, a defesa do meio ambiente; ele, da qualidade na educação.
Grande novidade para as eleições de 2010, Marina Silva ainda engatinha para ser candidata em 2010. Em entrevistas recentes, a senadora não hesitou em responder questões complexas recorrendo ao discurso da necessidade de “desenvolvimento sustentável”.

No entanto, a senadora promete ser a melhor saída aos insatisfeitos com a dupla Serra-Roussef. Boa porque a nova integrante do PV mantém coerência, bom-senso e está longe do radicalismo de Heloísa Helena. Apesar de ainda correr o risco de ser rotulada como candidata de discurso segmentado, como Buarque o foi com a educação, levantando apenas a bandeira de defesa do meio ambiente.

O discurso único é ineficaz numa campanha ao principal cargo político brasileiro. Com essas propostas, Marina e Cristovam podem ser importantes ministros, cada um ocupando a pasta que melhor domina, mas não podem ser bons candidatos à presidência. Nas eleições de 2010, Serra, Dilma e Ciro tem bem mais chances de chegarem ao poder, não por estarem em partidos maiores e terem melhor visibilidade política, mas por terem uma visão política mais completa e rebuscada.

Já é o momento de Marina cooptar aliados que deem a sua campanha um discurso maduro, que demonstre aos eleitores que a senadora está preparada para ocupar a Presidência da República. Um bom aliado seria o próprio Cristovam Buarque – caso o senador não se candidate - e seu partido, o PDT. Uma chapa composta pelos ex-ministros petistas, além de sofisticar a candidatura, seria uma alternativa duplamente atraente ao eleitorado.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Muita energia no lugar errado

Cidadãos indignados pedem saída de Edinho, mas o que fez Edinho?


Na última semana, um comentário do goleiro Rogério Ceni trouxe novamente à tona um velho e conhecido discurso: o de que o futebol aliena, e o povo brasileiro é símbolo disso. Após a invasão do vestiário da Portuguesa devido a uma derrota, o são-paulino disparou: “Não sei por que as pessoas não vão até o Senado protestar da mesma maneira contra a política brasileira”.

Acontecimentos como a invasão do vestiário desse time paulista são certeiros na história futebolística brasileira. Sempre depois de duas ou três derrotas de seu time, fanáticos enchem-se de angústia, entram em desespero e saem às ruas brigando com torcedores adversários. Isso quando não destroem o estádio e apedrejam o ônibus de seu próprio clube. Nessas horas, notamos que o brasileiro não se esqueceu de como protestar, eles apenas protestam pelos motivos errados, em lugares dispensáveis.

Em meio ao caos existente em nossa política, que sofre com constantes denúncias de corrupção e descaso com a “coisa pública”, revoltar-se ante a derrota de um clube da segunda divisão do Campeonato Brasileiro nos soa amedrontador e, porque não, vergonhoso. Rogério Ceni é apenas um dos poucos entristecidos, ou revoltados, com a inversão de valores presente em nossa sociedade.

Tivéssemos a mesma energia com que nos enfurecemos com nosso clube para enfrentar nossos verdadeiros representantes, que são os políticos, quando estes chutam a bola pra fora ou fazem gol contra, certamente os times da Câmara, do Senado e do Planalto jogariam melhor.