As luzes se apagavam, pessoas entreviam cenas em pensamento e quase que soltavam o riso antecipado. Uma voz logo os aquietou, era o diretor; fazia uma espécie de chamada. Logo o homem calou-se. Era a hora.
O início não trouxe apenas risos, eram gargalhadas. O homem sério encarava a platéia, quase os desafiava. Seus gestos e seu tom de voz logo denunciavam seu personagem. Falava calmamente, explicava pormenores, ao que o povo ria. De repente, a mudança de tom. Um homem se levanta da platéia, protesta contra o homem sobre o palco. Outro, ainda mais revoltado, entra na sala; esbravejava, gritava. Às gargalhadas, o público ainda vê outro se levantando, este não menos irritado. O apresentador estava enganado, sentiam-se ofendidos. Entretanto refletiram, ponderaram, será mesmo que ele se enganara? O discurso havia mudado. O apresentador estava prestes a contornar a situação. Juntos, os quatro homens, haviam se tornado um.
O homem arrancava risos, trazia uma espécie de alegria contagiosa aos espectadores. As entradas e saídas se faziam freqüentes: homens vestidos de mulheres, homens vestidos de homens. Intrigas, loucuras, paixões, eles encenavam uma vida cotidiana, comum. Entretanto a arte, naquele momento, parecia mais bela, era descompromissada, improvisada, não carecia de acertos. Os quatro homens traziam ao palco as atribulações dos homens, em seus aspectos mais cômicos. O palco era o mundo: o amor, a raiva, a amizade, a dor.
O público, em suas poltronas desconhecia o passar das horas, esqueciam-se dos compromissos mundanos, estes que tiram grande parte da beleza dos dias. As gargalhadas eram uma fuga, levavam-nos a outros mundos, estes mais puros, ingênuos, repletos de felicidades.
O olhar dos quatro homens para sua platéia denunciava o fim de tudo. Rompia-se um quadro mágico: o ator, o personagem, o espectador. As luzes, pouco a pouco se acendiam, traziam-nos para o mundo já conhecido; as conversas reais, mas com a sensação de prazer ainda sentida. Saíamos da sala como que libertos de algum peso desconhecido.
Os problemas corriqueiros não faziam parte daquele momento. Esta noite deixamos tudo o mais para outrora; um momento qualquer, sem importância. Teríamos, agora, belos sonhos; risos incontidos em mundos desconhecidos.





