domingo, 11 de abril de 2010

A vida como ela é, no Rio


Por Victor Chimenez


Dona Aparecida vê o que restou da sua casa e lamenta: - Meu Deus do céu e agora o que será da minha vida, perdi meus móveis, perdi minhas roupas, meu sustento, perdi a dignidade.
Esse é apenas um exemplo de tantos outros de uma cidade onde o caos tomou conta. Rio de Janeiro, cartão postal brasileiro, inspiração de tantas músicas, inclusive de Gilberto Gil, que cantava que a cidade continua linda, hoje é um retrato da falta de infraestrutura e abandono por parte da administração pública.
O resultado é evidente, com essas chuvas que causaram mais de cento e trinta mortos, a cidade do Rio de Janeiro mostrou o seu outro lado, o lado da tristeza, da falta de bom senso e comprometimento de suas autoridades.

O Rio de Janeiro que representa treze porcento de toda a riqueza nacional, uma cidade com suas belezas exuberantes, a capital do petróleo e do gás natural, e sede das Olimpíadas de 2016, hoje sofre, sofre como se fosse uma cidade pequena sem perspectiva de desenvolvimento, sem perspectiva de futuro, um futuro assustador, um futuro que assola e está presente em cada bairro, em cada casa que desaba com a chuva que não tem data e nem hora marcada.

Uma cidade como o Rio de Janeiro sofre por ser uma cidade que não se preocupou em investir em infraestrutura e hoje ainda pensa em sediar jogos olímpicos. O Rio de Janeiro não aprendeu que ainda precisa cuidar da segurança, precisa cuidar de saneamento básico, precisa ajeitar seu sistema de transporte e modernizar o seu sistema urbanístico.

O resultado disso tudo é patente, o Rio de Janeiro hoje parece um amontoado de morros, um amontoado de pessoas que amontoadas pedem ajuda e desesperadas pedem um lugar ao sol.

É... o Rio de Janeiro continua lindo, o Rio de Janeiro sendo... Sendo uma capital que ainda não amadureceu como metrópole, ainda não acordou e ainda sonha em sediar os jogos olímpicos com competência e esplendor. Infelizmente, enquanto a administração pública pensar assim, o povo carioca continua assim, abandonado, desassistido e vivendo de sonhos.


* Dona Aparecida é um personagem fictício, uma ilustração, numa história que, infelizmente, é real.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Era para ser o Plano Real do PT


A poucos dias de se desvincular do Governo Lula, Dilma Rousseff ganhou um importante elemento para utilizar em sua campanha, o Programa de Aceleração do Crescimento 2. O projeto, um pacote de investimentos da ordem de 1, 59 trilhão de reais, vem para trazer à candidata petista o mesmo impacto que o Plano Real trouxe ao então ministro da Fazenda do governo de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, em 1994. Levado à mídia enquanto seu antecessor, o PAC 1, atingiu apenas uma ínfima parte do que era previsto, o PAC 2 é fruto da sabedoria das boas cabeças do Partido dos Trabalhadores, que afirmam ter sido o Plano Real o verdadeiro responsável pela vitória de FHC sobre Lula naquele ano.

Se à época o petista tinha imensa vantagem sobre o então desconhecido candidato tucano, o Plano Real cuidou de dar notoriedade a este. E o PAC, com o mesmo apelo do Plano Real, é a aposta petista para transferir algum prestígio a Dilma Rousseff que, assim como o tucano em 1994, estava atrás nas pesquisas. Em 1994, como se sabe, o projeto funcionou, e Fernando Henrique ultrapassou e venceu Lula nas eleições presidenciais. Todavia, o Plano Real estava longe de ser o fiasco que é o Programa de Aceleração do Crescimento.

Elaborado pelo recém-chegado chefe do Ministério da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, junto a vários economistas da PUC/RJ, o Plano Real foi o maior pacote econômico já feito no Brasil. Num contexto de inflação recorde, onde a população sofria constantemente com a alta no preço dos alimentos, o projeto logo se tornou um sucesso e, em poucos meses, reduziu substancialmente a inflação. As medidas implantadas pelo pacote econômico tiveram importante influência no mapa social brasileiro, tirando milhões de brasileiros da miséria – quase 20% da população, segundo a Fundação Getúlio Vargas.

Os efeitos do Plano Real tiveram reflexo no bolso dos brasileiros e foram sim, em parte, os responsáveis pela vitória de Fernando Henrique sobre Lula e o PT – que a todo o tempo se opuseram ao projeto. Através do Plano Real, FHC se tornou o homem mais forte do governo Itamar Franco, que não deixou de vicejar seu apoio pela candidatura à presidência do ministro responsável pelo pacote econômico que pôs, finalmente, o Brasil no rumo do crescimento econômico.

Contudo, excetuando-se a ambição, o PAC está longe de apresentar os mesmos reflexos trazidos pelo Plano Real. Nem a metade da primeira etapa do programa foi concluída. Nos planos do Programa de Aceleração do Crescimento 2 estão investimentos em energia, habitação e transportes. Dando certo, o projeto trará maior independência energética ao país e melhorará toda a infraestrutura de transportes.

Mas, a julgar pelos inúmeros problemas do PAC 1, o PAC 2, por sua ambição, será uma mera peça de campanha para Dilma Rousseff. A candidata de Lula, e mãe do PAC, diferentemente do candidato de Itamar em 1994, e pai do Plano Real, terá de demonstrar muito mais aos brasileiros que obras superfaturadas, mal-acabadas e com atraso.

O Programa de Aceleração do Crescimento, por tudo que nos apresentou até o momento, está longe dos reflexos sociais e econômicos do Plano Real e dificilmente ancorará a campanha da candidata do PT. A boa ideia de dar a Dilma Rousseff o mesmo que Fernando Henrique e sua equipe deram a si mesmos não passa disso: uma ideia.

quinta-feira, 11 de março de 2010

E quando chegarem os comunistas?


Nos últimos dias um fato pitoresco foi descoberto pelos que tentam excomungar os irmãos Castro e sua ditadura na ilha de Cuba. Numa foto, ao lado de Lula – sim, nosso presidente – Fidel Castro trajava um confortável agasalho da Nike, a poderosa empresa norte-americana odiada pelos socialistas. Graças à imagem também se podia ver a imponência da residência castrista, com seus jardins e uma majestosa piscina. Gracejos, dos quais não duvido, ainda dão conta de que o socialista Fidel trafega pelas ruas cubanas fumando seu nativo charuto a bordo de um luxuoso automóvel alemão de nome Mercedes-Benz.

Não conheço a pequena ilha. Desde pequeno apenas ouço rumores de que no lugar ditadura e felicidade paradoxalmente conseguem coexistir. Pessoas que se vestem de vermelho me disseram que lá as escolas cubanas ensinam e o sistema de saúde funciona, além de inexistirem males capitalistas como a miséria e, consequentemente, a criminalidade. Por outro lado, dizem as más línguas, uma ditadura que censura, prende, mata e joga inimigos políticos no calabouço impera na ilha dos Castro.

Mas não entro nesse debate, não é meu desejo aqui. Prefiro remeter esse assunto a um pequeno e maravilhoso livro que li na adolescência: A revolução dos bichos. No decorrer da narrativa, os animais de um sítio revoltam-se contra seu senhor e conquistam a tão sonhada liberdade. A utopia socialista finalmente imperaria naquela terra onde a vontade de um homem era a lei. Todavia, curiosamente, alguns animais cuidaram de tomar para si os frutos da produção. A eles agora cabia o dinheiro e o poder, e ao povo (os outros animais) canga, aguilhão e feno – parafraseando citação atribuída a Voltaire.

Não quero dizer que isso se dá efetivamente em Cuba, pois pouco sei das reais condições do povo de Fidel Castro e seu irmão. Dizem haver por lá muito mais igualdade que em um país capitalista como os Estados Unidos. No entanto, como a lógica é uma ciência muito pouco aplicável ao caso ideológico, refuto a ideia de discutir os contrastes populacional e territorial entre os dois países.

Para terminar com mais uma graça, remeto agora a outra obra. Trago aqui um fato conhecido pelos habitantes da antiga e colossal URSS, contada pelo magnífico José Guilherme Merquior em A natureza do processo. Diz o pensador brasileiro que certa fez o apparatchiki – ou membro do Partido Comunista – Brejnev fez um convite à mãe dele para conhecer sua casa de campo. E assim ele mostrou à senhora os móveis luxuosos, o iate, a frota de automóveis, etc. Após o jantar, o homem que chegou a presidente da União Soviética indaga à senhora: “Mamãe, que tal? Seu filho até que venceu na vida, não foi?” Ao que a velhinha responde: “Sem dúvida, querido Leonid, estou muito impressionada. Mas me diga uma coisa: e quando os comunistas tomarem o poder, como é que você vai se arranjar?”.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Governo vs. Imprensa: Por que ninguém se entende?


Bem antes que se acometesse em mim o desejo peculiar de ser jornalista, muitos no Brasil já se debatiam na dicotomia acerca dos limites da liberdade de expressão. Ou melhor, até que ponto essa garantia de nossa Constituição atenta contra a própria Constituição. Esse debate traz à memória declaração do presidente da Bolívia, Evo Morales, para quem a exagerada liberdade de expressão é um empecilho para seu governo e seu país.


O grande problema no que tange a esse tema, no entanto, é a impossibilidade do diálogo entre os grandes meios de comunicação, o poder público e a sociedade. Afinal, quem são os verdadeiros representantes de seu povo – relembrando o questionamento feito pelo presidente do Senado, José Sarney: a classe política ou a imprensa? Mas não é essa a discussão que trago aqui. O que me comove nos últimos tempos, e esse novo Plano Nacional dos Direitos Humanos vem aguçar ainda mais, é essa relação de ódio e debate à distância entre as três esferas sociais.

Em suma, enquanto a sociedade parece não saber ou não querer entrar na contenda acerca do conteúdo ou do modo de produção e transmissão do produto midiático, o poder público toma para a si a discussão – e a Confecom não ajudou nesse debate, devido à ausência dos grandes veículos de comunicação –, enquanto a imprensa esperneia acerca das pretensões de mudança em seus serviços, acusando o governo de querer ressuscitar o "monstro da censura".

Silêncio, a melhor resposta

Como se vê, não há a previsão de um debate que envolva todos os interessados nessa questão e, assim sendo, toda e qualquer proposta que se valha da alteração da programação televisiva soa como um ato de imposição arbitrária. Digo da televisão, pois é esta a que mais tem gerado conflitos no debate, apesar de parecer que os veículos impressos – nada afetados pelo último PNDH – são os mais insatisfeitos com as iniciativas do governo de alterar o modus operandi midiático.

Em meio a esses conflitos, perde a sociedade, que se vê indefesa ante as infindáveis querelas entre imprensa e governo. E, assim, surge a questão: há, sim, uma predisposição do poder público em censurar jornais, rádios e televisões, ou isso não passa de uma mera falácia por parte da imprensa, por não querer rever seu conteúdo? Por enquanto, sem respostas, permanecemos embasbacados ante uma possível censura e um notoriamente pífio conteúdo midiático.

O que se pede é que o debate não seja um mero disseminador de senso comum. Precisamos, sim, de um maior conteúdo sócioeducativo por parte desses que têm para si uma concessão pública. Todavia, os mecanismos para se medir a qualidade de uma programação devem distanciar-se de prerrogativas político-partidárias – o que seria duvidoso com nosso atual governo.

E, assim, trago novamente a questão suscitada por José Sarney acerca de quem é verdadeiramente o representante do povo. O silêncio da sociedade talvez seja a melhor das respostas.


Por Anderson Oliveira


*Texto publicado no Observatório da Imprensa em 02/02/2010

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Mundo desumano: aonde anda a razão?
















Dos primeiros passos do homem na lua ao desastre no Haiti, um espaço de décadas denota os muitos avanços da humanidade, mas sempre em contraste com fatos que nos mostram a eterna miséria em que vivemos. Não falo da miséria da fome, pois esta não acomete a todos os homens, mas da penúria da razão, do pensamento. Ou seja, trato de nossa indigência e vazio intelectual.

A tragédia que ocorreu dias atrás no Haiti me faz cometer a blasfêmia de duvidar da razão. Sim, estariam absolutamente errados os positivistas franceses e até neopositivistas, como o italiano Norberto Bobbio e o brasileiro José Guilherme Merquior. Em verdade, a razão não existiria, é uma mera utopia peculiar ao que Freud poderia chamar de um infeliz sentimento de superioridade do homem.

Pois sim, a razão deveria nos levar a um progresso constante, em busca de um viver mais harmônico, sem que se recaia em fantasias como as de Thomas More. No entanto, como essa mesma razão pode nos sonegar uma realidade tão acabrunhante quanto a miséria em um país tão miserável como o Haiti? E pior, como a ciência, irmã da razão, pode levar-nos à lua, refutando a existência de um traço tão patente de nossa pobreza? E, em suma, como o progresso distancia-se de si mesmo em tão alarmante medida?

A essas perguntas respondo com um prosaico e pífio “não sei”. Em verdade, essa é a grande essência dessas linhas: um singelo não saber, que exemplifica a leviandade do homem em relação ao Haiti, à África ou à miséria em todos os cantos. Realmente não sabemos como agir, ou, simplesmente, esquecemos. Todavia, ao pensar assim, através da imagem da bondosa brasileira Zilda Arns, vitimada pelo terremoto nessa pobre ilha na America Central, noto que nem todos se esquecem de como agir.

Dona Zilda, como concluiu bem Eliane Catanhêde, é um retrato de tudo aquilo que desejamos ser, mas acrescento: nunca seremos. No entanto, a médica e sanitarista, ao ajudar milhões de crianças em todo o mundo, quem sabe não guiara-se em nome apenas da razão, mas também do amor. Ou, como ouvi de um professor meses atrás, buscou o que ele tenta arduamente conseguir em seu dia-a-dia, que é não agir egoisticamente, como já estamos habituados a viver.

O descaso dos países ricos em relação aos países pobres, e até mesmo dos governantes destas nações com seu povo, denotam o ridículo de nossa existência. Na verdade, uma existência em nome do dinheiro e do poder, não do progresso. E mais, reitera o quanto somos egoístas.

Como podemos chegar à Lua, Marte e Plutão, se somos incapazes de garantir ao vizinho do lado o mínimo necessário para sua sobrevivência na Terra? A razão deve nos levar a um progresso completo, de modo que todos possam partilhar dos sabores deste mundo. Por assim pensar, soam ridículos os passos de Neil Armstrong em nosso satélite.
Assim como beira o grotesco a destruição e a miséria no Haiti.

O que fica é que talvez nossa miséria não seja fruto apenas da inexistência da razão, mas da carência desse amor que era tão comum em Zilda Arns. Ou, se não há amor, quem sabe então seja reflexo de nosso cômico egoísmo.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O espetáculo da imprensa e a corrupção do cotidiano



O dia-a-dia de nossa imprensa parece demarcado pelo apocalipse da corrupção política. Talvez nunca tenham sido veiculadas tantas denúncias de corrupção como nos últimos cinco anos. As notícias de falcatruas de nossa classe política viraram o grande elemento de constituição de jornais e revistas. Por trás dessa pandemia tresloucada, interesses de todas as espécies: poder, dinheiro, ideologia, etc. Ou, quem sabe, o tom dado pelos jornalistas acerca da corrupção política seja apenas uma forma de retaliação ante a impunidade e o silêncio dos cidadãos. Mas, de qualquer modo, tais excentricidades perpetradas por nossa mídia podem acarretar em uma visão negativista e também apocalíptica da população em relação à política.

Não podemos medir as influências da imprensa no cotidiano dos cidadãos. No entanto, conceber que o negativismo imposto por nossos jornais e revistas influencia pesarosamente nas ações das pessoas não é nenhum desvario. Como bem afirma Contardo Calligaris (A armadilha da corrupção, 03/11/2005, Folha de SP), a imprensa, mesmo fazendo o que deve fazer, que é publicar o que ela descobre, acaba por incutir em seus leitores o lugar-comum de que todos são corruptos. Isso os inibe, segundo o psicanalista, em sua capacidade de agir.

Todavia, além do crescente espetáculo em cima da corrupção impetrado pela imprensa fazer com que os cidadãos criem certa repulsa pela política, ele é capaz de influenciar as pessoas a construírem determinadas formas de retaliação. O famoso jeitinho brasileiro, bem sabemos, é capaz ser esticado ao ponto de extrapolar com a moral. Assim, as inúmeras e corriqueiras ações dos cidadãos em seu dia-a-dia, sejam através de sonegação de impostos, de compra de produtos pirateados, de oferecimento de propina a funcionários públicos podem ser uma forma de contrapartida às ações ilícitas de nossos políticos.

Segundo antropólogos, o “jeitinho brasileiro” é uma espécie de refúgio ou saída que a população encontrou para sobreviver no Brasil. Isso oriunda dos tempos em que o país era colônia de Portugal, quando nossos índios tinham que ser hábeis no trato com os portugueses a fim de garantirem sua sobrevivência. E, hoje, é uma forma de se sustentar ante políticos e empresários.

Resta saber quem são os verdadeiros culpados, ou melhor – como, juridicamente, todos o são – quem são os precursores do sentimento de corrupção generalizada. Isto é, em um país como o Brasil, onde os políticos, os empresários e os cidadãos cometem atos ilícitos, quais são os responsáveis pela corrupção, ou, quem influencia mais essa pandemia cíclica e corrosiva.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Do ministério à presidência – duas histórias






Um era ministro da Fazenda do governo de Itamar Franco. Outra, hoje, é ministra da Casa Civil do governo Lula. O primeiro, quando assumiu o mais difícil dos ministérios, em 1993, tinha um grande desafio pela frente: acabar com a inflação. Três outros ministros já haviam sido demitidos por Itamar por não apresentarem resultados contra o grande mal que afligia os brasileiros.

A segunda assumiu em 2006 a mais importante pasta do atual governo, a Casa-Civil, substituindo o companheiro José Dirceu, denunciado por corrupção. Os desafios eram reorganizar um ministério desestabilizado pela saída de seu chefe e tornar-se o principal nome à sucessão do presidente Lula.

O primeiro, fundador do PSDB e ex-senador, Fernando Henrique Cardoso, aos poucos, se consolidou como o mais eminente homem para substituir Itamar Franco. Com um projeto econômico simples, montado com diversos amigos economistas, o sociólogo conseguiu diminuir uma inflação acumulada no ano de mais de 2700% para apenas 15%. O notável é que essa queda aconteceu em plenas eleições de 1994, e garantiu a vitória de FHC sobre Lula, hoje chefe da segunda, Dilma Rousseff.

Assim como Itamar Franco, que lançou seu mais importante ministro às eleições de 1994, Lula deseja nomear Dilma, considerada o segundo nome do governo do PT, candidata à presidência da República pelo partido em 2010.

Outra importante semelhança entre Dilma e FHC é sua posição nas pesquisas. Fernando Henrique teve de enfrentar as pesquisas que apontavam, em 1994, uma vitória esmagadora de Lula nas eleições. A ministra de Lula, hoje, aparece bem atrás do também ex-ministro, José Serra.

Similaridades a parte, o que se pode contabilizar são as contribuições dos dois ministros à atual situação política e econômica do Brasil. Fernando Henrique usou como mote de campanha sua contribuição para tirar milhões de brasileiros da pobreza ao fazer cair a inflação, ainda como ministro.

Dilma Rousseff, diferente de Palocci, não contribuiu para os avanços econômicos do governo Lula. Como plataforma de campanha, a ministra usa de importantes programas sociais, como o PAC – Programa de Aceleração do Crescimento, que é alvo de inúmeros bloqueios por parte do Tribunal de Contas, e o recém-criado Minha Casa, Minha Vida.

Todavia, diferentemente de Fernando Henrique, que tinha apenas uma obra para apresentar aos eleitores, Dilma, além dos programas sociais que ainda engatinham, tem a ligação com o que talvez seja o mais popular dos presidentes brasileiros. Necessita, para isso, que a imagem do presidente Lula seja transmitida a ela.

Apesar das semelhanças entre Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff, esta herdou de seu chefe o discurso de oposição a qualquer preço. A ministra do PT não para de explanar toda sua admirável capacidade administrativa em detrimento da incapacidade dos homens de seu governo e do anterior de fazer a “máquina andar”. Dilma afirma que, antes de Lula, existiam as trevas, e que ele a ensinou o caminho para o progresso.

Do ministério à presidência, como se vê, é um caminho fácil. Basta que se trabalhe com seriedade. O possível candidato tucano, José Serra, também fez muito enquanto ministro de Fernando Henrique.
Que se contabilize, portanto, o quanto os dois possíveis candidatos – e o próprio FHC - trabalharam até hoje. Fugindo à estratégia enganosa de se comparar o presente ao passado.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O cinema brasileiro, de Surfistinha a Lula












O ano de 2010 será inesquecível para a história do cinema nacional. Pela primeira vez, o brasileiro poderá ver na telona duas histórias peculiares à história do Brasil. Logo no começo do ano, no dia 1 de janeiro, estreia nos cinemas de todo o país Lula, o filho do Brasil. Alguns meses depois, é a vez de O doce veneno do escorpião, filme baseado no livro homônimo de Bruna Surfistinha.

As semelhanças entre Lula, o filho do Brasil e O doce veneno do escorpião são poucas, apesar de muitas. Sim, isso é contraditório, mas explico. Ambos os filmes retratam a vida de dois personagens excêntricos do país. Um conta a história de uma jovem de classe média que decide ser prostituta. Outro relata um pouco da vida de um retirante nordestino, pobre, que decide ser político. Espero que vocês entendam que a similaridade aqui fica por conta do gênero biográfico. Mas há outras analogias.

O filme que relata a vida da jovem paulista recebeu, para sua produção, mais de R$ 3 milhões de reais em renúncia fiscal. Isto é, a verba para a execução do longa foi aprovada pelo Ministério da Cultura e origina-se do pagamento de impostos. No entanto, comparado com o custo do filme biográfico de nosso atual presidente, “O doce veneno do escorpião” não saiu tão caro assim. Lula, o filho do Brasil gastou até aqui R$ 12 milhões de reais, ou seja, quatro vezes mais que o filme da Surfistinha. E a semelhança?, você se pergunta.

Uma das muitas polêmicas que envolvem o filme de Lula é a origem da verba para sua produção. De acordo com a Agência Estado, o longa recebeu verba de algumas empreiteiras, dentre outras grandes empresas ligadas ao Governo Federal. O notável é que essas empresas obtiveram ou estão para obter financiamentos de órgãos federais.

A diferença dentro da semelhança, portanto, é que o filme que retrata a história da hoje ex-prostituta recebeu verbas federais formalmente, dentro da lei. Enquanto Lula, o filho do Brasil, obteve dinheiro de modo bem conhecido por nós, brasileiros: através do famoso jeitinho brasileiro de burlar a lei, ignorando a existência da moral.

Em suma, debruçamo-nos até aqui numa analogia entre os dois filmes, seja por seu caráter biográfico: ambos se basearem em filmes sobre as duas personalidades – sim, o longa sobre Lula é baseado também em livro homônimo, de Denise Paraná. Seja também pela semelhança no ano de estreia e na origem infeliz da verba para suas produções.

Aguardemos, agora, para descobrir qual história comoverá mais aos brasileiros que, direta ou indiretamente, estão pagando pelas duas obras. Qual vida entreterá mais o público, a do nordestino pobre que se tornou político ou a da menina de classe média que virou prostituta? Esperemos para ver se as semelhanças param por aqui.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O que é Lua Nova?




Creio que poucas obras refletem tão bem a atualidade como os filmes Crepúsculo e Lua Nova. Do primeiro, não tenho porque me queixar, pois não o assisti. Infelizmente, o mesmo não me aconteceu com o segundo. Fui induzido a cometer o tão insidioso ato de assisti-lo em nome da boa relação humana. Lua Nova agora vai ser o meu pesadelo de 2009. Quando lembrar-me desse ano algum dia no futuro, lembrarei do quanto o mundo já estava corroído por obras superficiais e baratas como o referido filme.

O grande problema, devo salientar, não é especificamente com Crepúsculo, Lua Nova e os outros filmes da série que ainda serão feitos. Obras como essas existem várias por aí, algumas até mesmo com atores, direção, fotografia e roteiro piores. Sei que parece impossível, mas existem sim, basta assistir aos filmes exibidos na TV Globo. O assombroso nessa série de filmes pueris baseados em livros de uma tal Stephanie Meyer é o grau de arrebatamento que ela suscita na sociedade.

Há meses não se fala em outra coisa em universidades, bares, lares e estaleiros. Fala-se de um “casal perfeito”, da beleza dos protagonistas e outras coisas fundamentais às pessoas de pouco juízo. Mas o que é, afinal, Lua Nova?

Quando pensei que tivéssemos deixado para trás esse cultivo infantil a lendas de vampiros e lobisomens, eis que essas antigas histórias ressurgem para ilustrar o amor de Bella e Edward. E, como se não bastasse, insinuando o amor impossível de uma humana por um vampiro, remetendo conscientemente à história de Romeu e Julieta – o livro de Shakespeare aparece no filme para ilustrar essa semelhança.

Lua Nova é, sem dúvida, um filme que retrata bem nosso tempo: a superficialidade e a fantasia redimindo-nos da dura realidade cotidiana. Pão e circo – nunca usei essa expressão, mas aqui ela é válida. Pensando assim, o filme tem lá seu valor.

Para os apaixonados por cinema, no entanto, fica a sensação de fim do mundo. Ninguém sabe ao certo nem a qual gênero pertence Lua Nova. Afinal, é romance sem ser romântico, é suspense sem ser um Hitchcock, é drama sem comover ninguém. Mas atrai o público como dinheiro.